• Bruno Ferraz

Taquicardia ventricular não sustentada em insuficiência cardíaca não isquêmica


Paciente de 54 anos chega em seu consultório encaminhado pelo médico do trabalho pois em radiografia de tórax de admissão na empresa foi identificado aumento da área cardíaca. Desconhece qualquer doença prévia. Apesar de negar sintomas de insuficiência cardíaca, informa que tende a ficar mais cansado após grandes esforços que ele credita à falta de preparo físico. Ao exame físico, identificou-se um desvio do ictus cordis além de terceira bulha. O ECG revelou ritmo sinusal com BRE de terceiro grau. O ecocardiograma confirmou a disfunção sistólica do VE de grau importante (FE=25%) e regurgitação mitral moderada (funcional). Encaminhado ao cateterismo cardíaco que não revelou lesões coronarianas. Realizou Holter 24h que mostrou 35000 extrassístoles e 85 surtos de taquicardia ventricular não-sustentada (TVNS) com 3 a 9 complexos. Qual é o próximo passo?

A) Estudo eletrofisiológico

B) Biópsia endomiocárdica

C) Dosagem sérica de ferritina

D) ECG de alta resolução (ECG-AR)

E) Encaminhar doente para implante de desfibrilador, sem nenhum outro teste

RESPOSTA:

A taquicardia ventricular não sustentada (TVNS) é comum em doentes com insuficiência cardíaca (IC). É uma causa significativa de mortalidade já que a taquicardia ventricular pode se tornar sustentada e degenerar para fibrilação ventricular, causando morte súbita. Os desfibriladores implantáveis já mostraram ser capazes de prevenção tanto primária quanto secundária de morte súbita. No entanto, a indicação equivocada deste dispositivo pode levar na verdade à choques desnecessários e aumento da mortalidade.

Em pacientes com IC não isquêmica, os dados da literatura são conflitantes em afirmar que a TVNS aumenta a mortalidade nesses doentes, especialmente nos doentes com terapia otimizada. A presença da TVNS apenas não deve guiar indicações de dispositivos nestes doentes.

No paciente da questão, temos uma IC não isquêmica, recém diagnosticada, em paciente CF I NYHA, ainda sem terapêutica instituída. Além disso, a etiologia da IC não foi definida.

Neste caso, devemos inicialmente iniciar o tratamento farmacológico para IC e buscar o diagnóstico etiológico antes de indicar dispositivos ou estudo eletrofisiológico. A investigação se inicia de maneira não invasiva, sendo a dosagem de ferritina a opção correta nesta questão.


Postado por:


BRUNO FERRAZ DE OLIVEIRA GOMES

Médico rotina do Unidade Cardiointensiva do Hospital Barra D'Or

Ecocardiografista do Hospital Barra q

Diretor Administrativo do Departamento de Doença Coronária da SOCERJ

Intensivista no Hospital Federal Cardoso Fontes

Mestrando em Engenharia Biomédica na COPPE/UFRJ

Título de especialista em cardiologia e terapia intensiva

www.drbrunoferraz.com.br

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