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O Filé do ACC.26: Os Estudos Que Vão Mudar a Cardiologia

O ACC.26 aconteceu em Nova Orleans entre os dias 28 e 30 de março de 2026 e trouxe uma safra impressionante de ensaios clínicos. Sete sessões de Late-Breaking Clinical Trials, 27 apresentações, dados de 26 países — o congresso mais importante da cardiologia americana entregou o que prometeu. Aqui estão os estudos que você precisa conhecer.

1. CHAMPION-AF — O WATCHMAN FLX como alternativa de primeira linha ao anticoagulante

Esse foi, provavelmente, o estudo mais aguardado do congresso. O CHAMPION-AF randomizou 3.000 pacientes com fibrilação atrial não valvar e CHA₂DS₂-VASc ≥2 (homens) ou ≥3 (mulheres) — todos elegíveis para anticoagulação oral — para oclusão do apêndice atrial esquerdo com o dispositivo WATCHMAN FLX versus NOAC. Conduzido em 141 centros de 16 países, incluindo o Brasil.

Resultados em 36 meses: o endpoint primário de eficácia (morte cardiovascular, AVC ou embolia sistêmica) ocorreu em 5,7% do grupo dispositivo vs. 4,8% do grupo NOAC — atingindo não inferioridade (p<0,001). O bleeding não-procedural foi significativamente menor com o WATCHMAN FLX: 10,9% vs. 19,0% (HR 0,55; p<0,001). O benefício clínico líquido combinado foi superior ao NOAC: 15,1% vs. 21,8%. Publicado no NEJM.

⚠️ Ponto de atenção: o AVC isquêmico foi mais frequente no grupo dispositivo (3,2% vs. 2,0%) e trombose relacionada ao dispositivo foi detectada em 4,8% dos pacientes — 1,8% clinicamente relevante. Taxa de sucesso procedimental de 99%.

📌 Mensagem prática: o WATCHMAN FLX emerge como alternativa razoável ao NOAC mesmo em pacientes elegíveis para anticoagulação, especialmente naqueles com preocupação com sangramento ou adesão a longo prazo. A decisão deve ser compartilhada e individualizada.

2. HI-PEITHO — Trombólise guiada por ultrassom na embolia pulmonar de risco intermediário-alto

O maior ensaio randomizado mundial comparando o sistema EKOS (trombólise facilitada por ultrassom via cateter) associada à anticoagulação versus anticoagulação isolada em embolia pulmonar aguda de risco intermediário-alto. 544 pacientes, centros nos EUA e Europa.

O endpoint primário composto (mortalidade relacionada à EP, recorrência não fatal ou descompensação hemodinâmica em 7 dias) ocorreu em 4,0% com EKOS vs. 10,3% com anticoagulação isolada (p=0,005) — redução de 61%. Tempo de internação e de UTI foram menores no grupo intervenção. Nenhum episódio de sangramento intracraniano em 30 dias. Publicado no NEJM.

📌 Mensagem prática: em EP de risco intermediário-alto, a abordagem intervencionista com EKOS se mostrou superior à anticoagulação convencional com perfil de sangramento favorável. Dado que muda conduta.

3. STEMI-DTU — Descompressão do VE com Impella antes da ICP: resultado neutro, mas revelador

A ideia de descomprimir o ventrículo esquerdo antes de reperfundir o miocárdio era biologicamente elegante. O STEMI-DTU randomizou pacientes com IAMCSST anterior sem choque cardiogênico para Impella CP com ≥30 minutos de suporte antes da ICP versus ICP imediata padrão.

Resultado: a estratégia de descompressão não reduziu o tamanho do infarto por RMC. O tempo de isquemia aumentou em média 47 minutos. Sangramento e complicações vasculares foram muito mais frequentes no grupo Impella (34,0% vs. 6,0%). Mortalidade em 12 meses: 4,0% vs. 5,1%, sem diferença significativa. Publicado no JACC.

📌 Mensagem prática: para o IAMCSST anterior sem choque, o padrão-ouro continua sendo reperfusão rápida. O Impella preventivo rotineiro não tem papel nesse cenário. Há sinal interessante em pacientes ≥61 anos que merece investigação futura.

4. VESALIUS-CV — Evolocumabe em prevenção primária: a fronteira se move

O VESALIUS-CV avaliou o evolocumabe vs. placebo em 12.257 pacientes com aterosclerose estabelecida mas sem infarto ou AVC prévio, em uso de estatina de alta intensidade. LDL basal mediano de 115 mg/dL.

O evolocumabe reduziu significativamente MACE-3 e MACE-4 nessa população — primeiro ensaio a demonstrar benefício de um inibidor de PCSK9 em pacientes sem IM ou AVC prévios já em uso de estatina de alta intensidade. Isso expande o conceito de que a prevenção intensa com PCSK9i não deve ser restrita à prevenção secundária clássica.

📌 Mensagem prática: pacientes com aterosclerose documentada mas sem evento isquêmico prévio se beneficiam de PCSK9i. Isso borra a fronteira entre prevenção primária e secundária na prática clínica.

5. SCOUT-HCM — Mavacamten em adolescentes com MCH obstrutiva: dado histórico

Primeiro ensaio fase 3 com inibidor de miosina cardíaca em população pediátrica. O SCOUT-HCM randomizou 44 adolescentes (12-17 anos) com NYHA II-III e MCH obstrutiva para mavacamten vs. placebo por 28 semanas. Gradiente VSVO basal médio de ~79 mmHg em ambos os grupos.

O endpoint primário (redução do gradiente pela manobra de Valsalva) foi atingido com diferença de -48,0 mmHg (IC 95% -67,7 a -28,3; p<0,001). Múltiplos desfechos secundários também favoráveis: gradiente em repouso, pós-exercício, espessura máxima do VE e E/e'. NT-proBNP e troponina reduziram com mavacamten. Nenhum paciente teve FEVE <50%. Publicado no NEJM.

📌 Mensagem prática: pela primeira vez temos evidência fase 3 de uma terapia-alvo para MCH obstrutiva em adolescentes. Se aprovado, o mavacamten seria a primeira opção farmacológica direcionada à fisiopatologia da doença nessa faixa etária.

6. SMART-DECISION — Beta-bloqueador pós-IAM: podemos parar?

O debate sobre beta-bloqueadores crônicos após IAM com FEVE preservada ganhou um capítulo decisivo. O SMART-DECISION avaliou a descontinuação do beta-bloqueador em pacientes estáveis, de baixo risco, que estavam em uso por pelo menos 1 ano após o infarto. Com seguimento mediano de 3,1 anos, o endpoint primário (morte, IAM recorrente ou hospitalização por IC) ocorreu em 7,2% no grupo descontinuação vs. 9,0% no grupo continuação (HR 0,80) — atingindo não inferioridade.

📌 Mensagem prática: em pacientes pós-IAM estáveis, sem IC ou FEVE reduzida, parece razoável considerar a descontinuação do beta-bloqueador após pelo menos 1 ano. O SMART-DECISION entrega a evidência que o ABYSS não conseguiu fornecer.

Outros destaques do ACC.26

🇧🇷 SURVIV (Brasil no ACC!): Estudo randomizado latino-americano conduzido em 7 centros do Brasil, comparando reoperação cirúrgica versus valve-in-valve transcateter para disfunção de bioprótese mitral — apresentado pelo Dr. Dimytri Siqueira.

📐 ALL-RISE: O FFRangio (fisiologia derivada da angiografia) demonstrou não inferioridade ao fio-guia de pressão invasivo em MACE em 1 ano, com menor tempo de procedimento. Publicado no NEJM.

💊 CORALreef AddOn: Enlicitide, o inibidor oral de PCSK9 (1x/dia), superou ezetimibe e ácido bempedoico na redução do LDL em pacientes em estatina. Pode ser o próximo passo na terapêutica do LDL oral.

🫁 CADENCE: Sotatercept (Winrevair) mostrou resultados positivos na síndrome de hipertensão pulmonar combinada pós e pré-capilar associada à ICFEp (CpcPH-HFpEF) — uma população com opções terapêuticas muito limitadas.

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