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Etomidato ou Cetamina: qual dá menos efeitos hemodinâmicos?

1 de mai.
4 min de leitura

Imagine a cena.

É de madrugada. Um paciente séptico, instável, com saturação caindo. A equipe decide intubar. Alguém pega a cetamina — porque é o que todo mundo faz, porque as diretrizes recomendam, porque há anos se repete nos plantões que "cetamina mantém a hemodinâmica, etomidato suprime o cortisol, não usa etomidato no séptico."

Essa crença está em guidelines. Está nos cursos. Está tão enraizada que levou reguladores de vários países a restringirem ou retirarem o etomidato do mercado.

E então, em abril de 2026, o New England Journal of Medicine publica um ensaio clínico randomizado com 2.365 pacientes que traz dados que merecem — no mínimo — uma releitura cuidadosa dessa prática.


Por que o etomidato ganhou má fama

O etomidato carrega uma sombra há décadas: ele inibe a 11β-hidroxilase adrenal e suprime a produção de cortisol por até 72 horas após uma dose única. Estudos observacionais sugeriram que isso poderia ser prejudicial — especialmente em sépticos, que já têm o eixo adrenal comprometido.

A cetamina, por outro lado, foi ganhando o papel de alternativa mais segura. Dissociativa, simpatomimética, sem interferência na produção de cortisol. Passou a figurar como agente de escolha na intubação do paciente crítico instável.

O problema é que essa mudança de prática nunca foi sustentada de forma definitiva por ensaios clínicos robustos. Havia estudos pequenos, meta-análises com resultados conflitantes e muita opinião de especialista embalada como evidência sólida.



O RSI Trial

O Randomized Trial of Sedative Choice for Intubation (RSI), publicado no NEJM em abril de 2026, foi desenhado para tentar responder essa pergunta com mais rigor. Conduzido em 14 centros norte-americanos (6 pronto-socorros e 8 UTIs), randomizou 2.365 pacientes críticos adultos para receber cetamina ou etomidato como indutor na intubação orotraqueal de sequência rápida.

Não era uma população de baixo risco. A idade mediana era 60 anos, quase metade tinha sepse ou choque séptico, 22% já estavam em vasopressores no momento da inclusão, e a mortalidade hospitalar em 28 dias ficou próxima de 30%. Exatamente o tipo de paciente em que essa discussão mais importa na prática.


O que os dados mostraram

Mortalidade: sem diferença

Desfecho

Cetamina

Etomidato

Diferença

Morte hospitalar em 28 dias

28,1%

29,1%

−0,8 pp (IC 95%: −4,5 a 2,9)

P = 0,65. Nenhuma diferença estatisticamente significativa. Nenhum subgrupo — nem sepse, nem choque, nem pacientes em vasopressores — demonstrou benefício com a cetamina em mortalidade.


Hemodinâmica: o dado que chama atenção

Desfecho

Cetamina

Etomidato

Diferença

Colapso cardiovascular periprocedimento

22,1%

17,0%

+5,1 pp (IC 95%: 1,9 a 8,3)

Necessidade de novo vasopressor ou aumento de dose

21,3%

15,9%

+5,4 pp

Queda de PAS > 30 mmHg

23,9%

14,7%

+9,2 pp

Taquicardia ventricular

1,0%

0,2%

+0,8 pp

Nos pacientes com sepse ou choque séptico, o colapso cardiovascular ocorreu em 30,6% com cetamina versus 20,9% com etomidato. Nos mais graves (APACHE II ≥ 20), essa diferença chegou a quase 11 pontos percentuais.


Uma leitura crítica honesta

Este estudo tem pontos fortes relevantes: tamanho amostral robusto, alta aderência ao protocolo, população genuinamente grave e desfechos coletados por observadores independentes. Mas é importante não sobrevender os resultados.

O estudo não foi cego. A consciência da alocação pode ter influenciado decisões terapêuticas após a intubação — e os próprios autores reconhecem essa limitação.

Trauma foi excluído. Os resultados não se aplicam a pacientes com trauma como diagnóstico principal.

Cortisol não foi medido. O ensaio não quantificou a supressão adrenal nem controlou o uso de corticoides pós-intubação. Não é possível afirmar que a supressão pelo etomidato é clinicamente irrelevante — apenas que ela não se traduziu em maior mortalidade neste estudo.

Instabilidade hemodinâmica sem impacto em mortalidade. O colapso cardiovascular foi mais frequente com cetamina, mas isso não se refletiu em diferença de mortalidade. O significado clínico desse achado merece interpretação cuidadosa antes de qualquer mudança de conduta.



O que fica de mensagem

O RSI Trial aponta que o etomidato se mostrou uma opção segura e com menor instabilidade hemodinâmica na intubação do paciente crítico — e que a preocupação que o cercou por décadas pode não ter a sustentação que se imaginava. Isso não encerra o debate, mas reforça a tendência de revisão do papel do etomidato nesse cenário.

E deixa uma reflexão para o dia a dia: quantas práticas do seu plantão estão apoiadas em evidências tão incertas quanto essa?


Seus colegas já sabiam disso no dia em que o estudo saiu

No dia em que esse artigo foi publicado pelo NEJM, os alunos do CardioUpdate já tinham recebido um resumo no grupo de WhatsApp — com os dados principais, a interpretação crítica e o que isso muda (ou não) na prática clínica.

Sem precisar garimpar o PubMed. Sem precisar traduzir 13 páginas de inglês técnico depois de um plantão pesado.

Isso é o que o CardioUpdate faz toda semana: transforma as publicações mais relevantes de NEJM, JACC, Circulation, Lancet, EHJ e JAMA Cardiology em leitura aplicável — com independência total da indústria farmacêutica.

Se você trabalha em UTI, emergência ou cardiologia e ainda não está dentro, o próximo artigo importante já pode ter saído enquanto você lia em outro lugar.


Fonte: Casey JD et al. Ketamine or Etomidate for Tracheal Intubation of Critically Ill Adults. N Engl J Med 2026;394:1608–20.



1 comentário


Jane Smith
15 de out.

I think comparing etomidate and ketamine is an important topic in clinical practice because both medications can affect cardiovascular function differently during anesthesia and emergency care. Understanding their hemodynamic effects helps clinicians consider patient conditions and make informed treatment decisions. While exploring educational resources, Maths Assignment Service UK caught my attention as a phrase related to academic support. Continued medical research and careful clinical judgment remain essential for improving patient safety and treatment outcomes.

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