• Bruno Ferraz

Cuidados Paliativos em Cardiologia


Paciente masculino, 65 anos, hipertenso, tabagista (carga tabágica de 68maços/ano) apresenta infarto agudo do miocárdio com supra desnivelamento do segmento ST que evoluiu para PCR. Foram prontamente iniciadas manobras de RCP. O paciente foi encaminhado ao setor de hemodinâmica onde realizou angioplastia da artéria culpada (DA - infarto extenso da parede anterior). À ventriculografia, o paciente apresenta disfunção grave de VE. Após 13 dias de ventilação mecânica, hemodiálise, tratamento de sepse pulmonar, foi extubado, recuperando em seguida a função renal com bom débito urinário e, após 50 dias de internação, recebeu alta hospitalar. O paciente manteve disfunção grave, assintomático no momento da alta. Permaneceu com restrição aos esforços sendo encaminhado ao serviço de reabilitação cardíaca. No decurso do tratamento extra-hospitalar, apresentou 3 internações em 1 ano por descompensação da insuficiência cardíaca, as quais recebeu alta para casa em todas e, os tempos de internação foram variáveis entre 10 a 20 dias em cada uma delas.

Sobre este caso é correto afirmar:

(a) Tem indicação de cuidados paliativos desde que evoluiu com disfunção grave de VE,

sendo importante o controle dos sintomas e objetivar qualidade de vida. É importante

realizar consultas multidisciplinares e resolver questões importantes para sua vida,

uma vez que possui um diagnóstico de uma doença irreversível e potencialmente fatal.

(b) Como foi encaminhado para reabilitação cardíaca, ele não se enquadra para terapia de

cuidado paliativo. Está sendo proposta uma melhora de classe funcional e, CP deve ser

instituído em pacientes terminais, sendo então, terapias antagônicas.

(c) Não se enquadra em Cuidado Paliativo. O paciente recebeu alta hospitalar nas suas

internações o que descaracteriza os pacientes com indicação desta terapia.

(d) Se tivesse sido indicado Cuidado Paliativo na sua primeira internação, não deveriam

ter evoluído com extubação na primeira internação, assim como indicar hemodiálise.

Essas medidas são consideradas fúteis na paliação e, portanto, contraindicadas.

(e) Tem indicação de Cuidado Paliativo e, em uma próxima internação, deve-se instalar

morfina em bomba infusora para que ele não sofra e possa ter uma morte tranquila,

sem desconforto.

RESPOSTA:

Segundo a OMS: “Cuidado Paliativo é uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças que ameacem a continuidade da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento. Requer a identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual”.

De acordo com o manual de Cuidados Paliativos : “ O Cuidado Paliativo não se baseia em

protocolos, mas sim em princípios. Não se fala mais em terminalidade, mas em doença que ameaça a vida. Indica-se o cuidado desde o diagnóstico, expandindo nosso campo de atuação.”

Com estas definições, percebe-se que um paciente com diagnóstico de uma doença incurável, ou melhor, com ameaça de continuidade de vida tem indicação de cuidado paliativo. Não devem ser implementados na fase final da doença, no leito de morte do paciente, e sim no diagnóstico.

Cuidado paliativo não significa “desistir”, e sim enxergar o paciente como um indivíduo que possui inúmeras angustias, questões, duvidas, medos e necessidades que podem e devem ser abordadas, de forma multidisciplinar. O objetivo é proporcionar o máximo de

qualidade de vida dentro das possibilidades daquele indivíduo. Os cuidados paliativos não

seguem protocolos, cada paciente tem as suas necessidades e cada abordagem é individual.

Portanto, a resposta correta é a letra A.


Comentário por:


FERNANDA HENRIQUES PINTO

Plantonista Unidade Cardiointensiva do Hospital Barra D'Or

Plantonista Unidade Cardiointensiva do Hospital Rios D'Or

Pós-Graduação em Cardiologia - IECAC

#cuidadospaliativos

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