• Bruno Ferraz

Álcool e coração: boa combinação?


Um paciente de 42 anos procura atendimento em ambulatório de cardiologia por estar preocupado com a pressão, que ultimamente está em torno de 150x90 mmHg. O paciente não sabia ser hipertenso e não aferia sua pressão há mais de 15 anos. Nega diabetes, tabagismo e, história familiar de DAC. Relata que, esporadicamente, sente dor torácica constrictiva aos esforços. Há cerca de 8 anos, consome uma garrafa de vinho por dia, por acreditar “fazer bem para o coração”. No momento da consulta, o paciente encontra-se hipertenso, apresentando exame cardiovascular normal, exceto por ictus propulsivo. ECG de repouso evidenciando complexos QRS de amplitude aumentada e padrão de strain. Com relação a este caso, responda:

A) A hipertrofia ventricular esquerda (HVE) é definitivamente secundaria à Hipertensão Arterial crônica, já que a ação direta do álcool no coração acarreta disfunção sistólica e cardiomiopatia dilatada.

B) O Ecocardiograma do paciente provavelmente evidenciará disfunção diastólica, podendo ser multifatorial, decorrente de Hipertensão Arterial de longa data não tratada, DAC não diagnosticada ou mesmo efeito direto do álcool no músculo cardíaco.

C) Caso o paciente se abstenha do álcool, não haverá modificação na evolução natural da doença ou nos níveis pressóricos aferidos.

D) A dor torácica referida pelo paciente é causada pela HVE, ja que beber vinho diariamente é um comportamento protetor para DAC.

E) Caso o paciente se abstenha do álcool, é possível que haja aumento dos níveis pressóricos, agravando ainda mais a HVE e acelerando, assim, o remodelamento cardiaco e dilatação de câmara. Portanto, é necessário início de terapia medicamentosa ou aumento da dose em caso de decisão do paciente de parar de beber.

RESPOSTA: A ingestão crônica de uma grande quantidade de etanol pode induzir a disfunção ventricular esquerda, tanto sistólica quanto diastólica. A disfunção diastólica, que é provocada principalmente por fibrose intersticial do miocárdio, é frequente nos grandes consumidores de etanol, mesmo na ausência de sinais ou sintomas. Cerca de metade dos alcoólatras crônicos assintomáticos apresenta Ecocardiograma com HVE e função sistólica preservada.

O etanol também pode induzir disfunção sistólica assintomática de VE, mesmo em quantidades ditas “sociais”. Pelo menos 30% dos alcoólatras crônicos assintomáticos apresentam evidências ecocardiograficas de disfunção sistólica de VE. Com a continuidade da ingestão maciça de etanol, esses indivíduos costumam desenvolver sinais e sintomas de insuficiência cardíaca congestiva, causados pela dilatação da cavidade. O abuso de álcool é a principal causa de cardiomiopatia dilatada não isquêmica nos países industrializados, sendo dose dependente (>80g/dia).

Os indivíduos que consomem álcool de forma branda realmente apresentam uma incidência de insuficiência cardíaca mais baixa do que os abstêmios. Nos pacientes com disfunção de VE, o consumo leve a moderado não exacerba insuficiência cardíaca, podendo até reduzir a mortalidade em indivíduos com cardiomiopatia isquemica.

Os pacientes com cardiomiopatia dilatada induzida pelo álcool, se sintomáticos, podem apresentar uma melhora importante da função sistólica de VE com abstinência completa ou redução do consumo para menos de 60g/dia (4 doses padrão).

O etanol também é identificado como fator causador de HAS (cerca de 11% dos homens hipertensos). Indivíduos que consomem mais de duas doses por dia tem uma probabilidade cerca de 2 vezes maior de apresentar hipertensão, sendo a gravidade do aumento da PA, dose dependente. Embora o mecanismo não esteja completamente elucidado, provavelmente relaciona-se a vasoconstricção, já que estudos demonstraram níveis plasmáticos elevados de catecolaminas, renina e aldosterona. Nos indivíduos com hipertensão induzida pelo etanol, a abstinência frequentemente normaliza a PA.

O consumo maciço de etanol, também está associado a incidência aumentada de DAC, o que pode ser multifatorial, visto que os consumidores de etanol, quando comparados a abstêmios, apresentam mais HAS, HVE e dislipidemia. Em contrapartida, a ingestão leve a moderada de etanol (2 a 7 doses por semana) está associada a um risco reduzido de morbimortalidade cardiovascular, especificamente por Infarto do miocárdio.

Homens e mulheres se comportam de forma diferente quanto às doses relacionadas aos efeitos cardioprotetores do álcool, em doses mais baixas para mulheres. Além disso os efeitos são maiores para idosos e adultos de meia idade do que para jovens.

Portanto, a resposta correta é a B: O Ecocardiograma do paciente provavelmente evidenciará disfunção diastólica, podendo ser multifatorial, decorrente de Hipertensão Arterial de longa data não tratada, DAC não diagnosticada ou mesmo efeito direto do álcool no músculo cardíaco.


Comentário por:


ANNA LUIZA RENNÓ MARINHO

Título de especialista em Cardiologia - SBC

Plantonista da Unidade Coronariana do Hospital Barra D'Or

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