• Bruno Ferraz

Novas recomendações de hemotransfusão


Com relação ao último guideline de hemotransfusão publicado recentemente, podemos afirmar, EXCETO:

A) Devemos utilizar uma estratégia restritiva de hemotransfusão

B) Pacientes em pré-operatório de cirurgia cardíaca devem receber hemotransfusão apenas se Hb < 8g/dL

C) Hemoderivados podem ser estocados por até 42 dias

D) O uso de sangue "novo" (estocagem < 10 dias) está associado à redução de morbimortalidade

E) Em pacientes com Síndrome Coronariana Aguda (SCA) não existem evidências claras qual seria a melhor estratégia, havendo uma tendência a estratégia liberal.

RESPOSTA:

No último dia 12 de outubro, foi publicado no JAMA um novo guideline proposto pela AABB sobre Hemotransfusão (uso e estocagem).

Apesar de alguns guidelines previamente publicados, ainda há uma grande variação na prática transfusional. Geralmente, o número (nível de hemoglobina) é mais decisivo na transfusão que a clínica, diferente do que é proposto por alguns guidelines. Com isso, várias transfusões desnecessárias são realizadas.

As transfusões não são isentas de risco. Há o risco de reação transfusional como a TRALI (injúria pulmonar secundária à transfusão) e a TACO (sobrecarga circulatória secundária à transfusão), assim como riscos infecciosos (cada vez mais raros). Por isso, a hemotransfusão deve ser restrita ao paciente com evidente benefício.

Outros questionamentos relacionados à estocagem também foram levantados pelo guideline. Sabe-se que o sangue pode ser estocado por até 42 dias. Sangue estocado por mais tempo ("sangue velho") têm níveis mais baixos de 2,3-BPG assim como níveis mais elevados de hemoglobina, ferro entre outros. Alguns trabalhos observacionais mostraram maior morbimortalidade com hemoderivados com mais de 2 semanas de estocagem, mas os dados são conflitantes.

Recomendações:

1) Usar uma estratégia restritiva de hemotransfusão: Não transfundir o paciente hemodinamicamente estável com hemoglobina (Hb) > 7g/dL. Em pacientes em pré-operatório de cirurgia ortopédica ou cardíaca e aqueles com doença cardiovascular já existente o ponto de corte de Hb é 8g/dL. Não há evidência específica em pacientes em SCA, trombocitopenia severa e anemia crônica dependente de transfusões. Os estudos em SCA envolveram poucos pacientes mas há uma tendência que uma estratégia liberal seja melhor, mas novos estudos são necessários. A associação não se posicionou quanto a um ponto de corte na SCA.

2) Utilizar hemoderivados estocados dentro da faixa segura ao invés de utilizar apenas "sangue novo" (<10 dias de estocagem): Há evidência consistente de múltiplos estudos que a transfusão de sangue jovem não reduz a mortalidade comparado com a transfusão padrão, inclusive em crianças. O tempo médio de estocagem nos EUA é em torno de 18 dias (bem distante da máxima margem de segurança).

Com esses guidelines, a tendência é que reduzam progressivamente as hemotransfusões (fato que já vem acontecendo), reduzindo seus efeitos colaterais desnecessários e promovendo maior benefício a quem precisa. Alguns grupos ainda necessitam de mais evidências para definição de uma estratégia mais adequada de hemotransfusão.

Portanto, a resposta incorreta é o item D: O uso de sangue "novo" (estocagem < 10 dias) está associado à redução de morbimortalidade


Postado por:


BRUNO FERRAZ DE OLIVEIRA GOMES

Médico rotina do Unidade Cardiointensiva do Hospital Barra D'Or

Ecocardiografista do Hospital Barra D'Or

Diretor Administrativo do Departamento de Doença Coronária da SOCERJ

Intensivista no Hospital Federal Cardoso Fontes

Mestrando em Engenharia Biomédica na COPPE/UFRJ

Título de especialista em cardiologia e terapia intensiva

www.drbrunoferraz.com.br

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